O Brasil tem aproximadamente 80 milhões de processos judiciais ativos — oito vezes mais do que os Estados Unidos, mesmo com uma população menor. Essa absurdidade não é só um problema jurídico. É um mercado. E a Enter, uma startup de IA jurídica de São Paulo, transformou esse mercado no primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina.
O problema que poucos enxergavam como oportunidade
Quando a Free Digital Court Filing foi introduzida no Brasil no início dos anos 2010, houve uma explosão de processos judiciais. Consumidores passaram a processar bancos, varejistas, companhias aéreas e telecomunicações por disputas que em outros países seriam resolvidas no atendimento ao cliente.
O resultado: as maiores empresas do país gerenciam dezenas de milhares de processos simultaneamente, mantendo equipes jurídicas internas e relacionamentos com escritórios externos em uma escala que seria considerada extraordinária para qualquer empresa do mesmo tamanho nos EUA.
A Enter nasceu em 2023 para automatizar exatamente esse fluxo. A plataforma — chamada EnterOS — cobre o ciclo completo da litigância em massa: classificação de entrada de processos, detecção de fraudes em padrões de reclamações, recomendações de valor de acordo, elaboração automática de defesas e interpretação de decisões judiciais.
Números que impressionam o Vale do Silício
A trajetória da Enter é uma aula de como construirmoat defensivo em mercados emergentes:
- 2023: Fundação por Mateus Costa-Ribeiro em São Paulo
- Setembro 2025: Series A de US$ 35 milhões liderada por Founders Fund e Sequoia Capital, valuation de US$ 350 milhões
- Maio 2026: Rodada de US$ 100 milhões liderada por Founders Fund com Sequoia e Ribbit Capital, valuation de US$ 1,2 bilhão — triplicou em menos de 8 meses
A plataforma processa mais de 250.000 novos processos por ano para clientes como Itaú, Santander, Mercado Livre, Nubank, Airbnb e Bradesco. Esses não são clientes-piloto montados para narrativa de fundraising. São as maiores empresas em suas categorias no Brasil, com os processos de procurement mais sofisticados e os maiores padrões de confiabilidade operacional.
O founder-market fit que o Founders Fund destaca
Mateus Costa-Ribeiro não é um fundador qualquer que decidiu atacar o mercado jurídico. Ele se tornou o advogado mais jovem do Brasil aos 18 anos, formou-se na Harvard Law School, passou no exame da Ordem de Nova York aos 20, e abandonou um programa de MBA na Stanford para fundar a Enter.
Essa combinação — experiência prática em operações jurídicas brasileiras, formação acadêmica de elite nos EUA, e a decisão de construir no Brasil ao invés de ir para São Francisco — posiciona o Mateus em uma interseção muito específica: conhecimento profundo do problema, credibilidade para vender para executivos de operações jurídicas brasileiras que descartariam um fundador treinado nos EUA sem experiência de campo, e a ambição técnica respaldada por relacionamentos com Sequoia e Founders Fund.
A vantagem de dados que nenhum concorrente consegue copiar
Cada caso que a plataforma processa gera dados rotulados de resultado: o que foi a reclamação, qual defesa foi elaborada, se a recomendação de acordo foi aceita, o que o juiz decidiu e como o trabalho gerado por IA se comportou em relação ao resultado final.
Com 250.000 novos processos anuais nas maiores empresas dos setores mais litigados do Brasil, a Enter está acumulando um dataset proprietário de resultados judiciais brasileiros que nenhum concorrente começando hoje consegue replicar rapidamente. Esse dataset melhora os modelos de valuation de acordos, detecção de fraudes e previsão de decisões através de um ciclo de feedback que se compõe com a escala.
Quanto mais processos a plataforma gerencia, melhores ficam suas recomendações — e quanto melhores as recomendações, mais fortes ficam os relacionamentos com os clientes, porque migrar para um concorrente significa perder os dados acumulados que calibraram os modelos para cada cliente específico.
Como funciona na prática
O EnterOS opera em cinco fases principais:
| Fase | O que faz |
|---|---|
| Coleta de dados | Integra com tribunais, ERPs jurídicos e sistemas internos via APIs |
| Análise e taggeamento | IA lê todos os documentos exaustivamente — classificação granular por produto, tipo de reclamação e valor |
| Enriquecimento de evidências | Incorpora registros públicos e fontes externas para fortalecer defesas |
| Detecção de fraude | Mais de 30 verificações para padrões abusivos (lis pendens, adulteração de documentos) |
| Geração de defesa | Elabora respostas personalizadas por caso, auditadas por escritórios parceiros antes da distribuição |
Os resultados operacionais são concretos: 2,5x mais rápido na implantação, 15% de redução em perdas jurídicas e 4x de aumento na participação média de casos por cliente.
O que isso significa para founders brasileiros
A trajetória da Enter carrega lições que vão além do mercado jurídico:
Mercados "feios" geram moats profundos. O judiciário brasileiro não é o mercado mais glamoroso para se construir uma startup. Mas justamente por isso — pela complexidade, pela barreira de entrada regulatória, pelo conhecimento local necessário — a Enter construiu uma vantagem competitiva que concorrentes de fora do Brasil simplesmente não conseguem replicar.
IA vertical supera IA horizontal. Enquanto empresas como Harvey (EUA, valuation de US$ 3 bilhões) e Legora (Europa, negociando a US$ 6 bilhões) atacam o mercado legal ocidental, a Enter provou que mercados emergentes criam moats diferentes. O volume de processos no Brasil é estruturalmente maior, o que gera dados proporcionalmente mais ricos para treinar modelos de IA.
Founder-market fit não é clichê. O conhecimento profundo do Mateus sobre o sistema judiciário brasileiro — e sua capacidade de vender para os maiores bancos e empresas do país — é o que separa a Enter de uma startups genérica de IA jurídica.
O mercado global de IA jurídica
Para dimensionar a oportunidade, o mercado global de tecnologia jurídica deve atingir US$ 71,95 bilhões até 2031, com CAGR de 13,22%. O subsetor de IA jurídica, especificamente, deve ir de US$ 1,9 bilhão (2024) para US$ 6,5 bilhões (2034).
Dentro desse panorama, o Brasil representa um dos mercados mais atraentes do mundo para IA jurídica — não apesar do caos do judiciário, mas por causa dele.
Conclusão
A Enter não é apenas a história de uma startup que deu certo. É a prova de que o Brasil tem condições de gerar unicórnios de IA a partir de problemas estruturalmente brasileiros. Com 80 milhões de processos ativos, um mercado jurídico estimado em mais de US$ 10 bilhões e a capacidade de acumular dados que nenhum concorrente global consegue replicar, a Enter está posicionada não apenas para crescer — mas para definir como a IA jurídica funciona em mercados emergentes.
Para founders que estão construindo em verticals complexas no Brasil, a mensagem é clara: o mercado que ninguém quer atacar pode ser exatamente onde o moat mais profundo existe.

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